24 de outubro de 2011

Livro publica fotos inéditas da expedição de Scott ao Pólo Sul

Provavelmente Demetri é quem aparece na imagem, treinando um grupo de cães - Cabo Evans, outubro de 1911


O historiador e estudioso da região polar David M. Wilson tomava uma bebida em um mercado de arte alguns anos atrás quando um colecionador desconhecido aproximou-se. ''Ele disse: 'Você não vai adivinhar o que eu tenho em minha coleção’'', lembra Wilson.

O colecionador era Richard Kossow e lhe disse que em 2001 havia adquirido um portfólio de fotografias da Antártica do início do século 20. Contudo, não eram fotos comuns da Antártida: as fotos eram da expedição de Robert Falcon Scott que durou de 1910 a 1913 e na qual ele vários homens – incluindo o tio-avô de Wilson, Edward Wilson – morreram ao regressar.

Além disso, não eram fotos de expedição quaisquer, contou Kossow: eram fotos tiradas pelo próprio Scott. ''Eu quase engasguei com o gim-tônica’', afirma Wilson.

Durante muito tempo, o paradeiro da maioria das fotos de Scott – tiradas nas proximidades do local de invernagem na ilha Ross e no caminho em direção ao polo – fora um mistério. Apenas uma ou duas dezenas haviam sido publicadas, sendo que muitas delas foram atribuídas a outras pessoas de forma indevida. As fotos não publicadas aparentemente permaneceram por décadas em um arquivo comercial.

Agora, à medida que se aproxima o centenário da morte de Scott, que faleceu em março de 1912, Wilson publicou todas as imagens em seu livro 'The Lost Photographs of Captain Scott’ ('As fotografias perdidas do capitão Scott’, em tradução livre) juntamente com descrições detalhadas do local e do momento em que foram tiradas, da melhor maneira que foi possível ao autor determinar.




Scott contratou Herbert Ponting, conhecido fotógrafo profissional de viagens. Nunca se esperou que Ponting realizasse a árdua viagem da ilha Ross ao polo com trenós, pôneis e cachorros. Em vez disso, ele ministrou um curso intensivo de fotografia a Scott e outras pessoas, ensinando-os a usar câmeras volumosas, lentes e filtros, e tirar a fotos com adequada exposição à luz em condições extremas.

A curva de aprendizagem foi bastante acentuada, mas Scott tornou-se um dos melhores alunos de Ponting. Muitos de seus fotógrafos provêm dessas sessões de treinamento.

Sophie Gordon está montando uma exposição de trabalhos de Ponting como curadora sênior da coleção real do Castelo Windsor e Frank Hurley, fotógrafo mais de uma época mais recente da Artártida, afirmou que Scott aprendeu bem com o professor.

''Ele realmente usou de sensibilidade artística’', afirma Gordon. ''As suas melhores fotos parecem com as de Ponting’', afirma.


Acampamento nas Montanhas Wild - 20 de dezembro de 1911

Pôneis em marcha - 02 de dezembro de 1911

Acampamento de inverno - outubro de 1911


Fonte: http://www.extremos.com.br/

17 de outubro de 2011

Destino de expedição do século XIX ao Ártico continua envolto em mistério

Tem sido descrito como uma das maiores histórias de horror da era vitoriana. Dois navios com 129 homens a bordo e equipados com a tecnologia mais avançada, desaparecem quase sem deixar vestígios. Cento e sessenta anos de pesquisa não encontraram o HMS Erebus e seu navio-irmão, o (um tanto apropriadamente chamado) HMS Terror - as duas embarcações perdidas no ártico.

O Erebus e o Terror

Em 1845, o capitão da Marinha Real Britânica, Sir John Franklin, partiu com alguns dos melhores marinheiros da época com a missão de mapear a Passagem Noroeste.  A expedição de Franklin não foi a primeira na região, mas foi a mais infame.

 “Porque esta [expedição] fracassou, ao contrário de todas as outras,” questiona o escritor William Battersby. “Houve algum evento terrível com a expedição.” Battersby é um dos muitos fascinados pelo mistério da última viagem de Franklin. “Nós amamos histórias de aventura, de arrojo, de luta contra todas as probabilidades, mas nessa história eles não o fizeram e continuamos sem saber por que.”

O ambiente da Passagem Noroeste é implacável. A paisagem é vasta e deserta, comparável apenas com as luas de Jupiter. Os invernos são implacáveis e sombrios. Os homens de Franklin foram confrontados com temperaturas e nevascas particularmente brutais quando alcançaram a região.

Apesar dos navios terem sido reforçados com aço e carregarem 3 anos de provisões, parece que o ambiente sobrepujou as tripulações. “O homem põe, Deus dispõe,” diz Bob Headland do Scott Polar Research Institute, que regularmente visita a região. “E os deuses do gelo são imprevisíveis.”

Sir John Franklin

O desaparecimento do Erebus e do Terror desencadeou a mais longa missão de busca da história: Apesar de haverem numerosas tentativas de encontrar os navios, não se descobriu nem sinal deles.

Ryan Harris da Parks Canada conduziu a mais recente missão a tentar localizar os naufrágios. Dois meses atrás, sua equipe passou horas varrendo o fundo do oceano, procurando em águas com até 50 metros de profundidade. “É uma história incrível. Um naufrágio no mais remoto Ártico, colocando o poderio industrial inglês contra a Mãe Natureza,” diz Harris.

Desde 1997 a Parks Canada tem gasto centenas de milhares de dólares na tentativa de localizar o Erebus e o Terror. A lenda da Expedição de Franklin enfeitiçou os canadenses – os naufrágios têm a “honra” de serem os únicos sítios históricos do Canadá que ainda não foram localizados.

“Franklin havia recebido ordens que selaram o seu destino,” explica Harris. “Dirigindo-se para sudoeste através do Estreito de Victoria eles atingiram o ponto de estrangulamento do gelo. Uma vez dentro da armadilha dessa área, estavam condenados. Não há muita vida selvagem e a região é totalmente isolada.”

O último relato conhecido do Erebus e do Terror veio em 1848. Um amontoado de pedras com uma mensagem informando que as condições precárias já haviam reivindicado as primeiras vítimas, restando apenas 105 homens vivos.

Franklin foi uma das primeiras vítimas de sua própria expedição. No mesmo ano os homens abandonaram seus navios, e arqueólogos acreditam que eles começaram a percorrer uma rota para o sul em uma tentativa desesperada de encontrar alimento.

Entretanto o ambiente hostil pouco colaborou, e com poucos animais para caçar e mais de 100 homens para alimentar, a possibilidade de sobrevivência era baixa. Acredita-se que os homens tenham recorrido ao canibalismo em seus últimos esforços para sobreviver.

Os arqueólogos confiam em histórias orais dos esquimós para tentar unir as partes do enigma. Baseado em seus relatos pensa-se que alguns dos homens viveram por outros três ou quatro anos após terem abandonado os navios.

Mas as perguntas permanecem sobre exatamente o que lhes aconteceu. Em 160 anos somente dois esqueletos e três corpos perfeitamente preservados foram descobertos. É provável que doenças como o escorbuto tenham reivindicado muitas vidas, mas Battersby acredita que podem ter sido os próprios navios que mataram os marinheiros.

Sua teoria é que os homens tenham sucumbido ao envenenamento por chumbo proveniente do sistema de tubulações internas utilizadas para derreter o gelo e produzir água para beber. Ele espera que a descoberta dos navios traga as respostas.


"Existe um encanto na história," reconhece Harris. "Resolver o mistério acabaria com o fascínio." Mas mesmo dizendo isso, Harris está determinado a continuar procurando até que o Erebus e o Terror sejam encontrados. A Parks Canada insiste que suas buscas não foram inúteis e que continuarão a recolher informações que possam ajudar com esforços futuros.

Mas após 160 anos é possível que essa lenda fique congelada no tempo para sempre. "Estes são os últimos navios-fantasma," diz Battersby. "É a maior história de fantasmas do mundo."


Fonte:

16 de setembro de 2011

Alex Honnold



No universo do Free Solo Climbing (escalada sozinho sem equipamentos de segurança) Alex Honnold é o melhor do mundo. Honnold, um garoto desajeitado e ligeiramente retraído se tornou um alpinista focado, gracioso e seguro de si, capaz de realizar as mais difíceis escaladas na modalidade free solo.

Aos 23 anos, escalou a via normal do Half Dome em solo, levando apenas 2 horas e 50 minutos. Apesar dele mesmo confessar que não foi a escalada solitária mais difícil que já tenha feito, foi sem dúvida a mais tensa psicologicamente.


O Half Dome

Para conseguir realizar o feito em solo, o americano havia escalado a mesma via em outras 3 oportunidades: primeiramente utilizando equipamentos para ascensão em artificial, depois ele a escalou em livre e, dois dias antes de entrar em solo, havia escalado em livre, com Brad Barlage, para ganhar segurança.

O único equipamento (além da sapatilha e do magnésio) que Alex levou, foram 400 ml de água.




Fontes:

15 de setembro de 2011

Jack Kerouac


"Kerouac foi um sopro de ar fresco... uma força, uma tragédia, um triunfo e uma influência duradoura, e essa influência ainda está entre nós." - Norman Mailer



Em 1957, Jack Kerouac publicava On the road e iniciava uma revolução cultural nos Estados Unidos. O livro tornou-se o manifesto da geração beat, que rompia com o conformismo do american way of life e pregava a busca de experiências autênticas, um compromisso selvagem e espontâneo com a vida até seus mais perigosos limites. Diante de uma sociedade que aniquilava o indivíduo, os beatniks queriam uma consciência nova, libertada de padrões, escolhiam a marginalidade, o encontro do êxtase através das drogas, a liberdade sexual, a manifestação das angústias, a procura da aventura no contato com o outro lado da América: os vagabundos, os desesperados, a estrada que não leva a lugar nenhum.

Jean Louis Lébris de Kerouac, um dos profetas dessa rebelião, nasceu em Lowell, Massachusetts, no dia 12 de março de 1922. Descendente de uma família de franco-canadenses, Jack Kerouac recebeu uma educação católica e, graças a suas virtudes como atleta, ganhou uma bolsa para estudar na Universidade de Colúmbia. Para Kerouac, um rapaz do interior, Nova York representou um choque pela sua sofisticação e enorme energia. No campus, conheceu o poeta Allen Ginsberg, também estudante, e William Burroughs, formado em Harvard. Os três iriam se tornar os principais representantes da geração beat.

Por intermédio de Burroughs, Kerouac tomou contato com escritores como Kafka, Céline, Spengler e Wilhelm Reich. Os três amigos passaram a conviver com a barra-pesada da Times Square, e Kerouac começou a experimentar maconha e benzedrina, vivendo parte do tempo num apartamento perto da universidade e outra parte com a família no bairro de Queens. Mas a grande influência de sua vida foi o encontro com Neal Cassady, um jovem que vivia perambulando pelos Estados Unidos, uma espécie de libertário apocalíptico. Em 1947, Kerouac resolveu sair pelo mundo e pegou a estrada. Sobrevivia com pequenos bicos aqui e ali, buscando a companhia fraternal dos vagabundos, dos trabalhadores itinerantes, dos caroneiros e da bebida. Em 1951, concluía On the Road
, com suas longas frases em que descartava o uso da pontuação. E Neal Cassady aparecia no livro transformado no personagem Dean Moriarty.

No ano anterior, Kerouac havia publicado seu primeiro romance, The Town and the City. Em seguida, vieram The Dharma Bums (1958), The Subterraneans (1958), Lonesome Traveller (1960), Big Sur (1962) Desolation angels (1965). Mas nenhum desses livros atingiu a repercussão e o vigor de On the Road. Para muitos críticos, Kerouac repetia-se com pequenas variações biográficas, e a sua busca de uma prosa espontânea tornara-se uma fórmula.

Esse grande rebelde existencial possuía idéias políticas conservadoras. Num de seus últimos textos, indagava-se como podia ter despertado contestadores ferozes como Allen Ginsberg, Timothy Leary e Abbie Hoffman. Kerouac foi sempre um individualista, e suas inquietações voltavam-se para a descoberta de um "eu" mais autêntico. Essa busca parece tê-lo encaminhado em direção ao budismo. Inadaptado até o fim, Kerouac isolou-se completamente nos últimos anos de sua vida. Recluso, dividia uma casa com sua mãe em St. Petersburg, na Flórida. Bebia compulsivamente, via televisão horas a fio, pintava quadros repletos de Cristos tristes e usava uma grande cruz no peito: tinha retornado à religião de sua infância, o catolicismo. A 12 de outubro de 1969, com quarenta e sete anos, Jack Kerouac morria de uma hemorragia estomacal provocada pelo excesso de bebida. 

No vigésimo quinto aniversário da publicação de On the Road, os grandes nomes da beat generation como Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Carl Solomon, William Burroughs e Michael McClure reuniram-se na Universidade do Colorado para homenagear Kerouac, o grande companheiro de viagem. William Burroughs declarou: "Tudo é permitido, nada é real. O legado de Kerouac é o da ternura". Em 1972, foi publicado seu último livro, Visions of Cody.


Trechos e Citações:

"A morte irá nos surpreender antes do paraíso."

"Para mim da tudo na mesma, contanto que seja excitante e de a volta ao mundo."

"E percebo que não importa onde eu esteja, seja em um quartinho repleto de idéias ou nesse universo infinito de estrelas e montanhas, tudo está na minha mente. Não há necessidade de solidão. Por isso, ame a vida como ela é e não forme idéias preconcebidas de espécie alguma em sua mente."

"O anonimato no mundo dos homens é bem melhor do que a fama no céu."

"Porque o silêncio em si é como o som dos diamantes que podem cortar tudo."

"Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância."

"Se a moderação é um defeito, a indiferença é um crime ."

"Que sensação é essa de estar se afastando das pessoas, até que delas, ao longe, na planície, você só consegue distinguir minipartículas, dissolvendo-se na vastidão do infinito? - é o mundo que nos engole, é a despedida. Mas nos inclinamos à frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu."

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."

"Minha vida que não me ama, minha amada que não me quer. Seduzo as duas."

“Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte "lunática" de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a toda e qualquer idéia.”

"Oh, esses caipiras burros, estúpidos, tapados, jamais mudarão, são completa e absolutamente estúpidos. Chega o momento de agir e eles ficam paralizados, histéricos, assustados - nada os amedronta mais do que aquilo que querem."

“A verdade da coisa é, você morre, tudo que você faz é morrer, e contudo você vive, sim você vive, e isso não é uma mentira.”

“A velha noite de verão canta. – É assim que eu vou dormir, sob as estrelas na varanda e ao amanhecer eu me viro com um sorriso alegre no rosto porque as corujas estão chamando e respondendo em dois enormes troncos de arvores mortas um em cada extremo do vale, uh, uh, uh.”

"...não havia lugar algum para ir senão todos os lugares, rodando sempre, sob as estrelas..."

" Quando vejo uma folha cair, sempre digo adeus."

"O viajante possui dois relógios que não se podem comprar na Tiffany's. Em um pulso o sol, no outro a lua. As mãos são feitas de céu."

"Não importa onde eu esteja, minha mochila esta sempre a mão, estou sempre pronto pra partir."

29 de agosto de 2011

John Haines



"O domínio físico do campo tinha seu equivalente em mim. As trilhas que eu fazia conduziam para fora, aos morros e pântanos, mas levavam para dentro de mim também. E do estudo das coisas no caminho, e de ler e pensar, veio uma espécie de exploração, eu e a terra. Com o tempo, ambos se tornaram um em minha mente. Com a força de acumulação de uma coisa essencial se realizando a partir do chão primeiro, encarei em mim mesmo um anseio apaixonado e tenaz - abandonar para sempre o pensamento e todas as complicações que traz consigo, tudo menos o desejo mais próximo, direto e penetrante. Tomar a trilha e não olhar para trás. A pé, com raquetes de neve ou de trenó, nos morros de verão e suas sombras tardias entregelantes - uma marca alta nas árvores, um rastro na neve mostraria para onde fui. Que o resto da humanidade me encontre, se puder!"


John Haines em "As Estrelas, A Neve, O Fogo: 25 Anos nas Regiões Selvagens do Norte"

24 de agosto de 2011

Viajando com Charley



We don't take a trip, the trip takes us. É com esta sentença agradável que John Steinbeck afirma com sabedoria este complexo entusiasmo que nos permite sempre sonhar em viajarmos desbravadoramente. Relatos de viagens e aventuras são como um ar fresco em nosso cotidiano, nossa prisão mental e nossa condição de sobrevivência a qual estamos atrelados. Elas possibilitam viver "o agora", o real significado da felicidade contemplativa, longe dos planos ordinários que sempre perseguem ilusoriamente a felicidade no futuro.

Viajando com Charley é um ótimo livro "leve e simpático" que resume muito bem o papel de um observador sagaz pela mistura de conhecimento e contemplação da vida - na verdade para qualquer viajante (mochileiros, trekkers, cicloturistas) a arte de viajar é semelhante a um bloco de notas vazio que pretende ser preenchido com grandes e inesperadas histórias.

Aos 58 anos, o escritor já era reconhecido como um dos grandes da literatura norte-americana. No prefácio deste travel book, uma breve divagação sobre como a idealização pela viagem transcorre pela chama de sua juventude e nunca morre com o avanço da idade - para alguns isto é tratado como um sonho pueril que ilusoriamente morre na juventude, para outros menos corajosos sempre há uma boa desculpa para a inércia cotidiana. Em especial ao trabalho do escritor, estes seres estão condenados ao sedentário trabalho de bunda na cadeira e escritório silencioso. Logicamente Steinbeck não fazia parte deste grupo, e boa parte de seus livros foram escritos em épocas de vagabundagem e um vasto conhecimento territorial e cultural dos Estados Unidos. Por ironia do destino, este homem amadurecido estava confortável em sua casa aconchegante à beira de um lago em Long Island com sua família, indiretamente esperando a morte chegar lentamente... enquanto no ano de 1960 sua América estava na entrada de um novo círculo conturbado de um presságio revolucionário de grandes mudanças: contra-cultura, Bob Dylan, Martin Luther King, Vietnã, Guerra Fria e o sonho americano do progresso desenfreado. É exatamente desta forma que o impacto deste diário de viagem serve como um relato histórico de pressentimento de novos ares e impressões deixadas em primeira mão deste escritor curioso.

- Resumidamente, ele documenta a viagem que teve com seu estimado poodle francês Charley em torno dos Estados Unidos, em 1960. Descreve como era movido por um desejo de ver seu país em um nível pessoal, já que ele ganhava a vida escrevendo sobre ele. Ele tinha muitas dúvidas entrando em sua jornada, sendo a principal delas: "Quem são os americanos de hoje?" No entanto, ele considerou que a "nova América" não fez jus às suas expectativas.

-De acordo com Thom Steinbeck, filho mais velho do autor, o verdadeiro motivo da viagem foi que Steinbeck sabia que estava morrendo e queria ver seu país pela última vez. Thom diz que ficou surpreso que sua madrasta (esposa de Steinbeck) permitisse que ele fizesse a viagem; por causa de sua condição de coração ele poderia ter morrido a qualquer momento.

Programado para viajar em um feriado, venceu o grande furacão Donna que poderia provocar o adiamento ou até o cancelamento dos planos - tal acontecimento rendeu a incrível façanha de salvar seu barco no meio do furacão. John começa o livro, descrevendo seu desejo de viajar ao longo da vida e seus preparativos para viajar o país novamente, após 25 anos. Tinha um caminhão equipado e carinhosamente chamado de Rocinante (o cavalo de Don Quixote) com um personalizado "motorhome" na carroceria e planejava sair depois do Dia do Trabalho de sua casa em Sag Harbor, Long Island. Analogias implícitas, o desbravador "velho e sonhador" nos moldes de Quixote e seu Rocinante também deveria ter a companhia de um amigo inseparável ao molde de Sancho Pança: seu cachorro sensitivo Charley que também é um personagem que rende momentos divertidos na leitura. Paralelamente a descrições de estrada, paisagem e estados de espíritos dos três heróis, Steinbeck nos fornece importantes reflexões de cunho social, político, ambiental e cultural.

Das impressões iniciais, em devaneio a excitação do começo da viagem, o autor sempre gosta de parar em pequenos postos e restaures de beira de estrada, para filtrar a comunicação com os habitantes de cada local. Sempre que falava de sua aventura recebia respostas surpresas de admiração e um tipo de inveja saudável de pessoas que desejam ardentemente saírem do cotidiano (o autor usava um quepe da marinha para não ser reconhecido).





Na verdade, Steinbeck nunca foi o tipo de conservador retrógrado, bucólico ou algo como ruralista - muito menos um progressista defensor do universalismo politicamente correto. Comparando ao seu admirador inglês George Orwell, os dois tinham muito em comum, porque estavam além da dicotomia esquerda-direita sócio-política: eram defensores ferrenhos da liberdade individual (libertários), críticos ferrenhos das religiões organizadas e do misticismo, tinham um visão bem prática acerca da realidade, adoravam a natureza e a vida selvagem mas não as idealizavam de forma fantasiosa. Os receios ao avanço tecnológico e comunicação massificada não vinham de uma ideia ultrapassada nem medrosa, e sim porque os dois (Orwell e Steinbeck) tinham cacife suficiente da má utilização e do desenfreado progresso dessa convulsão civilizatória ausente de qualidade e de um significado maior. Desde As Vinhas da Ira que essa complicada relação já era tratada, e os impactos no modo de vida das comunidades rurais e pequenas cidades com sua própria organização e cultura. De fato não se trata de posições ingênuas, mas de um farto conhecimento e observação no qual a leitura desta viagem comprova enfaticamente quando o autor entra em uma cidade grande e depois contrasta aos subúrbios e adentrando a vida rural. É aquela relação da migração e de povos que buscam viver o sonho ilusório das grandes cidades - a decadência de grandes centros urbanos que não conseguem lidar com tamanha necessidade de saneamento e qualidade de vida - e a consequente perda de senso de vida em comunidade. Particularmente, o que há de mais especial nesses relatos é o modo como o autor retrata o caos metropolitano, a sujeira, a correria e a solidão da multidão - antagonicamente ao modo de vida pacato das pequenas cidades, seus costumes ainda vivos, mas não mais intactos pela ameaça propagandista de um sonho urbano.

Além de tudo isso, temos grandes momentos de humor na relação com Charley, na sua capacidade de sentir o humor do seu dono e como os dois acabam compartilhando bons e maus dias na estrada. Paisagens naturais descritas com muita precisão e conhecimento, que deixam o leitor provavelmente bem interessado em conhecer pessoalmente tais lugares - por exemplo o belo Estado de Montana. Até a metade do livro, já percebemos a característica de jornalismo nato do autor, quando faz questão de conversar e observar os moradores de cada cidade. Traça paralelos de uma empatia com velhos agricultores, simpatia por trabalhadores, uma reflexão sobre o esporte de caça, uma antipatia com guardas rodoviários e um importante atestado de como o fator "medo" está tão presente nos habitantes de grandes cidades. Por exemplo, no percurso para Niágara Falls e algumas cidades do Centro-Oeste, ele pegou um desvio e se viu discutindo o seu desagrado pelo governo. Ele diz que o governo faz uma pessoa se sentir pequena, porque não importa o que você diga, se não for em papel e certificado por um funcionário (burocracia), o governo não se importa. Explica como estranhos falavam livremente sem cautela como uma sensação de saudade de algo novo e estar em algum lugar diferente do lugar que eram. Eles estavam tão acostumados com a vida cotidiana que, quando alguém novo vinha à cidade, estavam ansiosos para explorar novas informações e imaginar novos lugares. Era como se uma nova mudança tivesse entrado na sua vida cada vez que alguém de fora da cidade entrasse em seu Estado.

Viajando mais, John descobriu que a tecnologia foi avançando rapidamente com o propósito de dar a mais e mais americanos satisfação instantânea. Desabafa: "Eu me pergunto por que o progresso se parece tanto com a destruição." - uma fria conclusão acerca da carência qualitativa frente a riqueza quantitativa do seu país. Indo em direção aos Estados tradicionais do Sul, uma bela paisagem deixa a viagem mais bela: a contemplação da gigante e milenar Sequoia, e como ela faz o homem se sentir tão pequeno. Na chegada ao Texas, Steinbeck explora essa relação de amor e ódio ao Texas e na reação das pessoas constata uma verdade da política contemporânea: não existe mais ideal no político, onde todos transitam numa moral cinzenta e desvitalizante de democracia e senso comum, falta-lhe coragem suficiente para defender suas ideias por mais absurdas que sejam - um autêntico tapa na cara da fraqueza individual da chamada social-democracia moderna.





Já no final de seu percurso, ficamos de frente com uma questão histórica pela qual o país passava: os conflitos raciais. Mais precisamente em Nova Orleans, muita confusão acontecera devido a polêmica inclusão de jovens negros em escolas. Foi o começo de uma revolução que mudaria o rumo da história através de Martin Luther King. Mais precisamente Steinbeck fora filtrar informações dos acontecimentos em busca das chamadas "cheerleaders" (senhoras brancas conservadoras que faziam escândalo em frente as escolas - atraindo a atenção da mídia sensacionalista) que protestavam contra a integração de crianças negras em uma escola em Nova Orleans. Encontrou então o racismo do Sul e logo descobriu que o racismo não era só para os negros, mas também em relação aos judeus. Steinbeck, em seguida, experimentou o "bestial e sujo" do lado cristão branco e relatou com minuciosidade as atitudes histéricas das senhoras e do povo racista quando as meninas negras entravam na escola.

Com os aplausos e o elogio da multidão, Steinbeck percebe que não havia pessoas sensatas na cidade e que tinham "deixado a imagem de Nova Orleans deturpada para o mundo". Após o incidente, enjoado com os acontecimentos não desejava visitar alguns de seus lugares favoritos, temendo os radicais. Em busca de um lugar isolado, ele se sentou ao lado do "pai das águas", o rio Mississipi, e encontrou um homem que participara daquilo tudo como um observador. Depois de dar uma carona para um homem desconfiado, um aluno negro com raiva, e seguidamente para um homem branco racista, Steinbeck concluiu que as pessoas do Sul estavam com medo de mudar seu modo de vida, assim como eram os filhos da Londres do pós-guerra, e que a maioria das pessoas do Sul se mantem neste medo da mudança, apesar das obras dos inspirados em Gandhi e Martin Luther King.

Para declarar a sua própria posição, Steinbeck conta a história de uma família de negros conhecidos por ele durante sua infância em Salinas, Califórnia - a família Cooper. O Sr. Cooper era trabalhador, honesto, sóbrio, respeitável e os filhos acadêmicos e artisticamente dotados. Em outras palavras, eles representavam uma antítese das calúnias racistas que o autor tinha ouvido falar durante suas viagens ao sul. Seria então um incomodo fruto de uma decadência da até então sociedade elitista incomodada pelas mudanças igualitárias?

A jornada de Steinbeck conclui com um inferência ao Rocinante através de uma movimentada rua de Nova York, durante uma tentativa fracassada de fazer uma inversão de marcha. Como ele diz a um policial de trânsito: " Senhor...eu dirigi essa coisa por todo o país - montanhas, planícies, desertos. E agora estou de volta na minha própria cidade, onde moro. - E eu estou perdido”.


Texto: Eduardo Rodrigues

17 de agosto de 2011

On the Road


“...Agora saca só esse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando em onde irão dormir essa noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira vão chegar onde pretendem – e quando terminarem de pensar já terão chegado onde queriam, percebe? Mas parece que eles tem que se preocupar e trair suas horas, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas; ou então a desejos caprichosos puramente angustiados e angustiantes, suas almas realmente não terão paz a não ser que se agarrem a uma preocupação explicita e comprovada, e tendo encontrado uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles. Eles sabem disso, e isso também os preocupa num circulo vicioso que não tem fim”.

Jack Kerouac em "On the Road"