We don't take a trip, the trip takes us. É com esta sentença agradável que John Steinbeck afirma com sabedoria este complexo entusiasmo que nos permite sempre sonhar em viajarmos desbravadoramente. Relatos de viagens e aventuras são como um ar fresco em nosso cotidiano, nossa prisão mental e nossa condição de sobrevivência a qual estamos atrelados. Elas possibilitam viver "o agora", o real significado da felicidade contemplativa, longe dos planos ordinários que sempre perseguem ilusoriamente a felicidade no futuro.
Viajando com Charley é um ótimo livro "leve e simpático" que resume muito bem o papel de um observador sagaz pela mistura de conhecimento e contemplação da vida - na verdade para qualquer viajante (mochileiros, trekkers, cicloturistas) a arte de viajar é semelhante a um bloco de notas vazio que pretende ser preenchido com grandes e inesperadas histórias.
Aos 58 anos, o escritor já era reconhecido como um dos grandes da literatura norte-americana. No prefácio deste travel book, uma breve divagação sobre como a idealização pela viagem transcorre pela chama de sua juventude e nunca morre com o avanço da idade - para alguns isto é tratado como um sonho pueril que ilusoriamente morre na juventude, para outros menos corajosos sempre há uma boa desculpa para a inércia cotidiana. Em especial ao trabalho do escritor, estes seres estão condenados ao sedentário trabalho de bunda na cadeira e escritório silencioso. Logicamente Steinbeck não fazia parte deste grupo, e boa parte de seus livros foram escritos em épocas de vagabundagem e um vasto conhecimento territorial e cultural dos Estados Unidos. Por ironia do destino, este homem amadurecido estava confortável em sua casa aconchegante à beira de um lago em Long Island com sua família, indiretamente esperando a morte chegar lentamente... enquanto no ano de 1960 sua América estava na entrada de um novo círculo conturbado de um presságio revolucionário de grandes mudanças: contra-cultura, Bob Dylan, Martin Luther King, Vietnã, Guerra Fria e o sonho americano do progresso desenfreado. É exatamente desta forma que o impacto deste diário de viagem serve como um relato histórico de pressentimento de novos ares e impressões deixadas em primeira mão deste escritor curioso.
- Resumidamente, ele documenta a viagem que teve com seu estimado poodle francês Charley em torno dos Estados Unidos, em 1960. Descreve como era movido por um desejo de ver seu país em um nível pessoal, já que ele ganhava a vida escrevendo sobre ele. Ele tinha muitas dúvidas entrando em sua jornada, sendo a principal delas: "Quem são os americanos de hoje?" No entanto, ele considerou que a "nova América" não fez jus às suas expectativas.
-De acordo com Thom Steinbeck, filho mais velho do autor, o verdadeiro motivo da viagem foi que Steinbeck sabia que estava morrendo e queria ver seu país pela última vez. Thom diz que ficou surpreso que sua madrasta (esposa de Steinbeck) permitisse que ele fizesse a viagem; por causa de sua condição de coração ele poderia ter morrido a qualquer momento.
Programado para viajar em um feriado, venceu o grande furacão Donna que poderia provocar o adiamento ou até o cancelamento dos planos - tal acontecimento rendeu a incrível façanha de salvar seu barco no meio do furacão. John começa o livro, descrevendo seu desejo de viajar ao longo da vida e seus preparativos para viajar o país novamente, após 25 anos. Tinha um caminhão equipado e carinhosamente chamado de Rocinante (o cavalo de Don Quixote) com um personalizado "motorhome" na carroceria e planejava sair depois do Dia do Trabalho de sua casa em Sag Harbor, Long Island. Analogias implícitas, o desbravador "velho e sonhador" nos moldes de Quixote e seu Rocinante também deveria ter a companhia de um amigo inseparável ao molde de Sancho Pança: seu cachorro sensitivo Charley que também é um personagem que rende momentos divertidos na leitura. Paralelamente a descrições de estrada, paisagem e estados de espíritos dos três heróis, Steinbeck nos fornece importantes reflexões de cunho social, político, ambiental e cultural.
Das impressões iniciais, em devaneio a excitação do começo da viagem, o autor sempre gosta de parar em pequenos postos e restaures de beira de estrada, para filtrar a comunicação com os habitantes de cada local. Sempre que falava de sua aventura recebia respostas surpresas de admiração e um tipo de inveja saudável de pessoas que desejam ardentemente saírem do cotidiano (o autor usava um quepe da marinha para não ser reconhecido).
Além de tudo isso, temos grandes momentos de humor na relação com Charley, na sua capacidade de sentir o humor do seu dono e como os dois acabam compartilhando bons e maus dias na estrada. Paisagens naturais descritas com muita precisão e conhecimento, que deixam o leitor provavelmente bem interessado em conhecer pessoalmente tais lugares - por exemplo o belo Estado de Montana. Até a metade do livro, já percebemos a característica de jornalismo nato do autor, quando faz questão de conversar e observar os moradores de cada cidade. Traça paralelos de uma empatia com velhos agricultores, simpatia por trabalhadores, uma reflexão sobre o esporte de caça, uma antipatia com guardas rodoviários e um importante atestado de como o fator "medo" está tão presente nos habitantes de grandes cidades. Por exemplo, no percurso para Niágara Falls e algumas cidades do Centro-Oeste, ele pegou um desvio e se viu discutindo o seu desagrado pelo governo. Ele diz que o governo faz uma pessoa se sentir pequena, porque não importa o que você diga, se não for em papel e certificado por um funcionário (burocracia), o governo não se importa. Explica como estranhos falavam livremente sem cautela como uma sensação de saudade de algo novo e estar em algum lugar diferente do lugar que eram. Eles estavam tão acostumados com a vida cotidiana que, quando alguém novo vinha à cidade, estavam ansiosos para explorar novas informações e imaginar novos lugares. Era como se uma nova mudança tivesse entrado na sua vida cada vez que alguém de fora da cidade entrasse em seu Estado.
Viajando mais, John descobriu que a tecnologia foi avançando rapidamente com o propósito de dar a mais e mais americanos satisfação instantânea. Desabafa: "Eu me pergunto por que o progresso se parece tanto com a destruição." - uma fria conclusão acerca da carência qualitativa frente a riqueza quantitativa do seu país. Indo em direção aos Estados tradicionais do Sul, uma bela paisagem deixa a viagem mais bela: a contemplação da gigante e milenar Sequoia, e como ela faz o homem se sentir tão pequeno. Na chegada ao Texas, Steinbeck explora essa relação de amor e ódio ao Texas e na reação das pessoas constata uma verdade da política contemporânea: não existe mais ideal no político, onde todos transitam numa moral cinzenta e desvitalizante de democracia e senso comum, falta-lhe coragem suficiente para defender suas ideias por mais absurdas que sejam - um autêntico tapa na cara da fraqueza individual da chamada social-democracia moderna.
Com os aplausos e o elogio da multidão, Steinbeck percebe que não havia pessoas sensatas na cidade e que tinham "deixado a imagem de Nova Orleans deturpada para o mundo". Após o incidente, enjoado com os acontecimentos não desejava visitar alguns de seus lugares favoritos, temendo os radicais. Em busca de um lugar isolado, ele se sentou ao lado do "pai das águas", o rio Mississipi, e encontrou um homem que participara daquilo tudo como um observador. Depois de dar uma carona para um homem desconfiado, um aluno negro com raiva, e seguidamente para um homem branco racista, Steinbeck concluiu que as pessoas do Sul estavam com medo de mudar seu modo de vida, assim como eram os filhos da Londres do pós-guerra, e que a maioria das pessoas do Sul se mantem neste medo da mudança, apesar das obras dos inspirados em Gandhi e Martin Luther King.
Para declarar a sua própria posição, Steinbeck conta a história de uma família de negros conhecidos por ele durante sua infância em Salinas, Califórnia - a família Cooper. O Sr. Cooper era trabalhador, honesto, sóbrio, respeitável e os filhos acadêmicos e artisticamente dotados. Em outras palavras, eles representavam uma antítese das calúnias racistas que o autor tinha ouvido falar durante suas viagens ao sul. Seria então um incomodo fruto de uma decadência da até então sociedade elitista incomodada pelas mudanças igualitárias?
A jornada de Steinbeck conclui com um inferência ao Rocinante através de uma movimentada rua de Nova York, durante uma tentativa fracassada de fazer uma inversão de marcha. Como ele diz a um policial de trânsito: " Senhor...eu dirigi essa coisa por todo o país - montanhas, planícies, desertos. E agora estou de volta na minha própria cidade, onde moro. - E eu estou perdido”.
Texto: Eduardo Rodrigues



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